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Os 4 segredos da performance dos quenianos

Conhecidos por sua performance quase sobre-humana, os quenianos sempre se destacam em provas internacionais com ótimos tempos. Veja por que
por Amanda Preto, em 17/07/2017

A queniana Jemima Sumgong deu um show de performance na 92ª Corrida Internacional de São Silvestre que aconteceu no último dia de 2016. Ela quebrou o recorde da prova na categoria, completando os 15 km em apenas 48min35s. Isso sem falar no caso mais recente e imbatível de Eliud Kipchoge, participou do projeto Breaking2 da Nike, com o objetivo de baixar para menos de 2h o tempo de uma maratona. Kipchoge quase chegou lá, se não fossem por 25 s, o que não deixa de ser fenomenal. Com essa marca de 2h00min25s, o queniano quebrou o recorde da maratona. Podemos citar muitos outros casos aqui, mas a grande questão é: qual é o segredo desses atletas do Quênia?

 

Jemima-Quênia-São-Silvestre

Jemima Sumgong no pódio da São Silvestre. Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

 

Nas últimas décadas eles dominaram o cenário de corrida. Até hoje, apenas atletas africanos foram capazes de correr uma maratona em menos de 2h06min, e os grandes destaques da lista de recordes são os quenianos e etíopes. Mas nem sempre foi assim. De certa forma, eles demoraram para descobrir o seu potencial. Um estudo comparativo mundial mostrou que em 1986 os quenianos representavam apenas 13% dos vencedores das corridas, contra quase 50% de europeus. Em 2003, os europeus caíram para 11%, enquanto os quenianos, em uma incrível virada de jogo, abocanharam 55% do montante global.

No Brasil, nenhum queniano havia ganho a São Silvestre antes de 1992, por exemplo, mas nos últimos 20 anos contabilizam-se 12 vencedores daquele país contra apenas cinco brasileiros e, na Volta da Pampulha, o placar já está em 6 a 4 para os africanos nas últimas dez edições. Tendo isso em vista, e a fim de dar mais chance aos brasileiros, desde o ano passado há limite de estrangeiros na categoria elite das corridas, variando de um a três atletas por país (dependendo da classificação da prova), segundo Martinho Santos, superintendente técnico da Confederação Brasileira de Atletismo.

Vamos aos possíveis segredos dessa turma talentosa:

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1. Eles têm DNA de corredor

Leves, magros, donos de longas e incansáveis pernas, eles parecem ter sido feitos para correr. Os melhores atletas de médias e longas distâncias vêm de oito tribos Kalenjin e, dentre eles, destacam-se os Nandi, cerca de 2% da população do Quênia. Estudo publicado na Jornal Escandinavo de Medicina e Ciências do Esporte mostrou que os corredores quenianos têm VO2 máx., índice que marca o aproveitamento do oxigênio, muito altos e uma economia de corrida impressionante. Também acumulam menos ácido láctico e amônia (subprodutos associados à fadiga) no sangue durante a prova, quando comparados aos corredores escandinavos, mesmo em intensidades de exercício muito altas.

Elevado  VO2 máx., utilização fracio­nada durante a execução e economia de corrida são fatores cruciais para o sucesso do corredor. Mas ao que tudo indica, a chave da superioridade do Quênia em médias e longas distâncias é uma combinação única desses fa­tores, como aponta um estudo do Cen­tro de Pesquisas do Músculo de Co­­penhague. A prova de que a combinação certa é que faz a diferença foi uma pesquisa com um grupo de atletas africanos com VO2 máx. significativamente menor (61ml/min/kg) do que um grupo de eu­ropeus (70 ml/min/kg). Ainda assim, eles foram capazes de atingir o mesmo desempenho em 10k que o ou­tro grupo, devido à economia de cor­rida e à capacidade de sustentar por mais tempo uma maior porcentagem do VO2 máx. Outro fator estudado foi a composição muscular desses atletas. Um estudo que saiu no Journal of Applied Physiology em 2007 com 13 Xhosas e 13 europeus mostrou que os corredores de 10k africanos, mesmo sendo fundistas, tinham mais fibras do tipo IIA (relacionadas à força e à ve­locidade) e menos fibras do tipo I, as­sociadas à resistência, do que os brancos.

 

2. Eles treinam nas montanhas para melhorar a performance

Muitos estudos mostram que a herança genética, sozinha, não faz um campeão. A maior parte leva também em consideração o meio. E, nesse item, destaca-se o fator altitude, pois a maioria daqueles corredores nasce e treina acima de 2.000 m, na região de Rift Valley. “Com isso, o corpo acostuma-se a trabalhar com menos oxigênio e promove adaptações gerais que melhoram a economia de corrida, como o aumento de hemácias no sangue, por exemplo. São as hemácias, as células vermelhas do sangue, as responsáveis por transportar o oxigênio pelo corpo. Os brasileiros, por exemplo, utilizam o treinamento em altitude para melhorar o sistema aeróbio, passando temporadas na Colômbia (Paipa está a 2 700 m de altitude)”, explica Evandro Lázari, treinador de atletismo da equipe BM&F Bovespa e mestrando em Biodinâmica do Movimento Humano pela Unicamp.

Além disso, os quenianos correm em trilhas de terra batida e montanhas, o que requer mais força com me­nor risco de lesões. Em geral, eles também são muito ativos desde a infância. Como moram em regiões rurais, precisam caminhar e correr longas distâncias. Estudo mostrou que as crianças quenianas que moravam longe da escola e iam a pé tinham um VO2 máx. 30% maior em relação às que não faziam esse esforço.

Outro fator estudado é a dieta. Os quenianos preferem alimentos simples e nutritivos, ricos em carboidratos e com pouquíssima gordura, com destaque para o ugali, uma espécie de polenta feita de milho, que comem muitas vezes ao dia. No prato, legumes, verduras, pouca carne e muito chá. Pequenas porções de frango ou carne assada e muito leite fornecem as proteínas necessárias.

 

3. Eles treinam duro

 

Sabe os treinos mais difíceis da sua planilha, quando você respira fundo e sabe que o dia será complicado? Pois é, são os preferidos dos quenianos. Basicamente eles treinam muito duro e quase sempre em subidas e em trilhas, o que aumenta o ganho de força e a qualidade do treino.

Moacir Marconi, conhecido como Co­quinho, treina quenianos há mais de 15 anos no Paraná. Para ele, o gran­de diferencial, além da genética, é um bom treinamento. “Muito fartlek, e duas vezes na semana, um longo com variação de terreno. Também fazemos muitas subidas para aprender a não se intimidar e deixar o ritmo cair. Em geral, eles treinam até menos que os brasileiros, sabem a importância do descanso, da recuperação”, conta o ex-atleta.

De fato, Catherine Ndereba, bicampeã mundial e tetracampeã da Maratona de Boston, certa vez afirmou que costuma correr entre 120k e 145k por semana, bem menos que os 180k costumeiramente feitos pelos outros atletas. Mas, apesar de a quilometragem ser menor, o trabalho é intenso. Chegam a correr três vezes ao dia, com muitos treinos em ritmo de prova (os chamados tempo-run), e de limiar, cruciais para condicionar o corpo a manter a alta velocidade por maiores distâncias. Em geral, a semana é preenchida com duas sessões de repetições curtas em subidas, uma de intervalados, uma de fartlek ou tempo-run e dois longões.

4. Eles correm para ganhar

Nascidos em um país pobre e devastado, a corrida é uma chance de saírem da miséria e ajudarem seus familiares. Para isso, eles deixam tudo e seguem mundo afora em busca de oportunidades de prêmio. Não importa se a corrida é fácil, difícil, com muito frio ou só com subidas. Extremamente focados, chegam, correm e partem.

O ex-maratonista olímpico Luiz Antônio dos Santos trabalha há três anos com quenianos em Taubaté (SP) e é um dos que acredita mais no potencial psicológico. “É óbvio que a genética ajuda muito, aliada ao fato de nascerem em região montanhosa. Isso pode favorecer, mas o grande diferencial é a dedicação, é o acreditar no que estão fazendo. Eles sabem que aquilo é o seu meio de sobrevivência, por isso são muito simples, humildes e batalhadores. Quando os brasileiros treinam com eles nesse intercâmbio que promovo, noto um aumento de concentração e dedicação, quando começam a acreditar que podem correr como um africano também”, diz.

De fato, quem já conversou com um corredor queniano, sabe. Humildes, resignados, tímidos e quietos. É notável como deixaram tudo para trás em busca de uma vida menos miserável e fizeram mais sacrifícios do que quase qualquer outro corredor.